segunda-feira, 24 de junho de 2013

dESISTÊNCIA - por Vinícius Linné

Eu cresci em uma casa de fraquezas. Por isso eu me fiz de forte.

Por muito tempo eu consegui fingir. Eu consegui fazer de conta que aguentava, que suportava tudo sem riscos, que tinha esperança até. Sim, até esperança eu consegui fingir.

Não consigo mais.

Antes eu podia fazer de conta que todo abalo era teatro de comover. Tal como fazia minha mãe, antes dela minha avó e antes dela, ainda, minha bisavó. Houve um tempo em que eu conseguia fingir que era hipocondríaco como elas.

Não consigo mais.

Eu não consigo mais fingir que minha fraqueza é fingimento. 

Ela é tudo que há de real em mim.

Minha máscara de ferro se quebrou e o rosto que há por baixo é de porcelana. Porcelana trincada. Eu cubro esse rosto com as mãos, eu tento protegê-lo, eu tento seguir, eu tendo me curar. 

Não consigo mais.

Tudo que eu podia consertar, eu consertei. Tudo que havia para remendar, eu remendei. Agora sou só cacos, só restos, só pedaços de demolição. Sou pura estrutura. E não demora, não demora para que eu comece a me implodir.

Há um limite para as reformas. Deve haver até um número específico de vezes em que o rabo de uma lagartixa cresce. Deve haver. Deve haver um ponto em que o coração de um homem não se refaz mais.

Antes eu conseguia fingir que não precisava de uma mão na minha. Que não precisava que secassem minhas lágrimas, que não precisava de uma intervenção e meia dúzia de comprimidos tarja preta.

Não consigo mais.

Dou dois passos inteiros, dois passos eretos, dois passos confiantes. E no terceiro eu já rastejo. Rastejo alheio ao que pensam, alheio ao que possa isso significar. Alheio aos risos e à dignidade que aprendi ainda menino com a frieza azul de Ághata.

Tudo que eu quero, então, é não andar mais. É parar. Erguer as mãos. Me render.
Eu quero desistir. Eu quero deixar tudo como está. Eu quero preservar o pouco que há. Eu não quero mais ter força. Exige demais. Machuca demais. Eu não quero me recompor para cair outra vez. Eu não quero colar os cacos se é para quebrá-los em pedaços menores. Eu não quero outra máscara de ferro se é para suportar novos golpes até ela se partir outra vez.

Não consigo mais.



3 comentários:

  1. quando foi mesmo que vc começou a viver a minha vida?

    ResponderExcluir
  2. Linné, obrigada e obrigada por tantos textos bonitos.

    ResponderExcluir

o Febre CRÔNICA agradece sua leitura e comentário.