sexta-feira, 27 de junho de 2014

dIPIRONA - Por Vinícius Linné

Nós prometemos muito a ela. Prometemos cuidar das fundações, manter as plantas vivas, regar as samambaias e deixar o café sempre quente. Por um tempo funcionou. Mas somos distraídos demais, acabamos trancados em nossos próprios quartos. Cada um em sua janela, cada um com suas dores e ilusões e amores. Cada um mais mudo que o outro.

Mudos mudamos. E a casa também.

O mofo cresceu, as rachaduras voltaram, as janelas foram quebradas sem que nenhum de nós ousasse trocar os vidros. As samambaias morreram, o café esfriou e a vontade de escrever nas paredes foi sumindo junto com as chaves que perdemos pelos bolsos.

Entre nós, a febre esfriou. E as febres não podem esfriar, não quando são crônicas.

Por isso, um dia nos flagramos na sala, de martelos e tábuas em punhos, ambos com a mesma resolução. Era hora de lacrar janelas e portas, jogar fora cartas e plantas, admitir que sozinhos não era nossa a casa. Era hora de sair dali, seguir cada um o rumo que sua janela mostrava e deixar a casa assim, lacrada, esperando, para o caso de algum dia haver volta.

terça-feira, 24 de junho de 2014

dIZER - por Adilma Secundo Alencar.

Com tua mão na minha: atravessar faróis, ver a novidade de abrir um livro novo, conhecer lugares, fazer café enquanto você me lê seu conto preferido da sua escritora preferida. Enquanto mulheres geram filhos, meninas moças debutam, pedreiros empilham tijolos amarelo ocre, médicos receitam  comprimidos brancos e amargos, agricultores arrancam raízes da terra fofa, putas se enfeitam, enquanto o sol se exibe para os homens sãos,enquanto a vida velozmente explode em tons de vermelho, eu aqui vadiamente ocupada ensaio um outro jeito de também narrar as coisas todas que você comove em mim.
Enchendo meu abraço de calor e pressa, eu já não sei mais do resto do mundo, porque o resto do mundo não tem um convite como o seu,todo em lábio escarlate e perfume de nuvem.
Eu não quero sair de dentro dessa áurea febril.Eu quero gozar o contínuo de nossos corpos se querendo, eu estou querendo dizer as coisas que nenhuma palavra alcança .

quinta-feira, 19 de junho de 2014

cARTA DE LILA - por Vinícius Linné

Eu sabia, do primeiro Oi ao último Eu te amo, eu sabia que era mentira. Eu sempre soube que você mentia para mim. A novidade, meu amor, é que é preciso duas pessoas para mentir, uma para fazê-lo e outra para acreditar. Eu não o culpo. Eu quis acreditar.

Eu quis acreditar que era importante para você, que era a única, que era a felicidade encarnada em pele branca e lábios roxos de frio. Eu quis acreditar que seríamos felizes, mesmo sabendo, palavra após palavra que você mentia. Eu sempre soube. Era algo na sua pele, na sua aura, no modo como seu sorriso travava seu rosto, nas micro expressões que eu lia pelos espelhos.

Mas sabe, meu bem, a verdade é que eu menti também. Uma mentira só, pequena. Minha mentira foi fingir que acreditava em você. E foi preciso, meu amor, foi mesmo preciso. Sem essa minha mentirinha você jamais abriria a guarda, jamais entraria em mim. Não você, não com tantos princípios e tantos ideais. Não você com suas paixões e poesias. Por isso eu menti. Se não mentisse, jamais teria conseguido chegar perto o suficiente para assassiná-lo, como o fiz.

Perdoe-me, então, amor. Pela mentira.

Sempre sua,
Lila.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

oLHOS FECHADOS - por Vinícius Linné

É de olhos fechados que escuto todas as músicas que eu teria feito para você. Pálpebras pesadas, escuridões oculares, outros modos de ver, dessa vez por dentro. É por dentro de mim que você acontece. Suas palavras, seu cheiro, seu toque, seu calor, seu gosto. Tudo é por dentro de mim e só posso vê-la de olhos fechados. Bem fechados.

terça-feira, 10 de junho de 2014

à NAMORADA - por Adilma Secundo Alencar.

À namorada.
Às mãos dadas, luz.

Pela força nesses olhos pequenos, por esse riso com cara de besta e esse jeito bruto de ser doce e chorona, pelo seu entendimento de minha fala, às vezes, incompleta, porque eu não sei terminar alguns pensamentos. Pela vontade de viajar por aí, viajar por um livro, por permitir nossa luz no mesmo espaço, por dividir seus sorrisos que me trazem pedaços de nuvem, por me acompanhar nos cantos bonitos dessa tua cidade minha, por me deixar te ver ver o mar ao seu lado. 

Pelo beijo com gosto de café e manhã, pela comida com gosto de sol num parque qualquer, pela letra na minha pele, por todos os cantos que me trazem coisas suas: tom carmim, gosto doce, luz azul, paroxítonas, doce de leite, estilo retrô anos 30, chapéus, motocicletas, algodão doce, vestidos de bolinha e filmes de amor. Pela vinda tarde da noite, pela minha espera doce, doce como eu não sabia ser, por rir do meu medo da loucura e me mostrar que a chuva de pedrinhas não faz medo nenhum, traz natureza branca para meu cacto junto daquelas flores resistentes no quintal de casa.


Por me trazer essa pressa pelo teu cheiro, essa urgência de quem não pode esperar mais de um dia por teu abraço, pelas coisas bestas e tão nossas, pelo seu consentimento de me entender na irresponsabilidade da lida, pelo teu corpo tão encontrado no meu , pelas urgências pares de dar conta de uma poesia impetuosa que rompe a tarde de domingo e é explosão de rio desaguando, de enchente rebentando cerca.
Pela voz, à noite, querendo dengo, querendo que o final de semana não tarde.

Pela coisas não ditas e abraçadas no nosso corpo morno e cansado. Obrigada, Flor.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

gEORGE tOOKER, - por Vinícius Linné

Ele lê imagens procurando que alguma delas conte a sua história. Não há. Não há nenhuma com um homem tão só, nenhuma com letras que flutuam e se fixam na pele. Não há uma imagem de luar e sonho que seja, ao mesmo tempo, ocre, vermelha, preta e azul.

Não há imagem com cheiro de pó, mofo, café e perfume. Se houvesse, contaria parte da história dele. Faltaria ainda o cheiro de vinho, sêmen e morangos maduros (ou mofados, se preferirem a parte dele que lê Caio Fernando Abreu).

Não há nenhuma imagem com música constante e calma. Nenhuma imagem com paixão de arrebatar e vazios de traça por entre as tintas. Nenhuma com luz de sol à noite. Nenhuma com as promessas que ele tatuou na pele: The impossible is possible tonight.

Não há quadro, por surrealista que seja, que consiga tocar-lhe de leve a história, as luzes e sombras que ele esconde no olhar, as sutilezas e descaramentos que ele amarra nas coxas, as mensagens codificadas nas mãos e nas linhas dos pés. Não há. Ele não encontra tela que conte, mesmo sussurrando, a história da sua alma. Por isso ele a escreve. Às vezes ele a escreve.

terça-feira, 3 de junho de 2014

fALAVA DE AMOR -por Adilma Secundo Alencar.

Falava de amor mesmo quando estudava seriamente para o artigo da universidade, mesmo quando brigava com o filho para que enchesse as garrafas de água e não colecionasse copos sujos na pia. Falava  de amor quando explicava sobra Antígona, Freud e Clarice. Era de amor que falava quando uma flor azul brotou na sua pele, eu vi. 

Falava de amor quando um filho chutou dentro sua barriga. Falava de amor quando destacava  nas páginas de Simone Beauvoir símbolos de liberdade. Falava de amor quando brotou um girassol diante de seus olhos e uma mulher roubou seu coração.

Falava de amor quando os olhos choravam a violência dos relógios e da loucura de um coração. Falava de amor quando  reconhecia humanamente o outro mesmo diante da quantificação que sua lida imperava.

Falava de amor,
Continua...